domingo, 12 de julho de 2009

"Coisa"


Que coisa!

Coisa é palavra-ônibus, de omnibus, em latim, democracia total: cabe tudo.

Na palavra coisa viajam todos os significados.

Coisa é tudo: é mistério e objeto, é invisível e visível, é lugar-comum, e devora.

As coisas nadam, crescem, vibram, voam, flutuam.

Alguma coisa acontece no meu coração.

Coisa é música aos ouvidos. Coisa é notícia. Coisa é causa de tudo e de nada. O Coisa-ruim é coisa do outro mundo. E deste também. Mas isso é coisa feita. Coisas do arco-da-velha. Coisa e tal e tal e coisa. São tantas coisinhas miúdas. Coisíssima nenhuma. A coisa em si. Cada coisa em seu lugar. Não me venha com coisas. A coisa foi por água abaixo. Coisa de louco!

Muitas vezes, ao falar, usamos a palavra coisa como uma coisa que substitui todas as palavras. E o pior é que substitui mesmo. E pior ainda: todo mundo entende.

Na ausência da palavra exata, que ilumina como um holofote a coisa a ser nomeada, usamos qualquer coisa no lugar dos outros nomes, como uma vela acesa no meio do blecaute.

A iluminação é precária, mas, nas trevas da Idade Mídia (a coisa tá preta), é melhor uma coisa do que nada. E, tipo assim, a coisa se metamorfoseia em todas as coisas, e nossa preguiça verbal se sente recompensada. Há sempre uma coisa à mão para nos salvar. Coisa serve para qualquer coisa.

Nada contra as coisas, ferozes amigas, mas é que as próprias coisas têm suas leis, e não gostam de que abusemos delas.

A coisa funciona assim: a coisa aparece diante de nós, anônima, feia, bela, e não sabemos (ou não queremos buscar) o nome da coisa. E aí, vem à nossa mente: que coisa!

E a coisa se fez coisa.

O milagre da coisa. A multiplicação das coisas. O sermão da coisa. A coisa que sempre volta. Um provérbio francês: "Quanto mais as coisas mudam mais permanecem as mesmas".

O paciente diz ao médico: — Doutor, não sei, mas estou sentindo uma coisa...

Coisa do destino.

Porque uma coisa é certa: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Até que se prove o contrário.

Mas esse papo meu tá qualquer coisa, de modo que, se for impossível dizer coisa com coisa, não pense duas vezes: vote na coisa.

Seja com a coisa uma só coisa. Coisifique-se!

De repente mil coisas!

Gabriel Perissé

Um comentário:

JAMES PIZARRO disse...

Por isso eu sempre me preocupei mais em ser. Do que em ter.
Quem se preocupa muito em ter coisas. Fica também uma coisa. Fica coisificado.

Bj

JP

Related Posts with Thumbnails